Meu Amado Profeta

SUA INFÂNCIA

Entregue a uma ama de leite

Quando nossa mãe Âmina tomou nos braços o seu filhinho luminoso, foi como se esquecesse a dor da morte de seu marido Abdullah. Depois que sua mãe amamentou nosso Mestre, o Profeta, por nove dias, Thuwayba Khâtûn, escrava (jâriya) de Abû Lahab, serviu-lhe de ama de leite por alguns dias. Thuwayba Khâtûn amamentara antes Hamza, e depois amamentou também Abû Salama. O hâfiz Ibn Jazarî diz: “Abû Lahab foi visto em sonho, e perguntaram-lhe em que estado se encontrava. Ele disse: ‘Estou sofrendo o tormento do túmulo. Mas todos os anos, na noite do dia doze do mês de Rabî’ al-Awwal, o meu tormento se alivia. Sinto alívio sugando a água fresca que sai de entre dois de meus dedos. Na noite em que Rasûlullah veio ao mundo, a minha escrava chamada Thuwayba deu-me essa boa nova. E eu, de alegria, libertei-a e ordenei-lhe que servisse de ama de leite ao menino. Por isso o meu tormento se alivia nessas noites.’” Naquele tempo, o povo de Meca tinha o costume de entregar os filhos a uma ama de leite. As crianças eram enviadas às pastagens altas das redondezas, de bom clima e água doce, e ficavam algum tempo junto das amas a quem haviam sido entregues. A causa disso era o clima quente de Meca. Todos os anos vinham a Meca, com esse fim, muitas mulheres. Cada uma levava uma criança para amamentar. Ao entregarem as crianças já crescidas, recebiam bom pagamento e muitos presentes. No ano em que nasceu nosso Mestre, o Profeta, vieram também a Meca, com a intenção de servir de amas de leite, muitas mulheres da tribo de Banû Sa’d, que vivia nas pastagens altas. Cada uma já tomara uma criança para amamentar. Entre as tribos das redondezas de Meca, a tribo de Banû Sa’d era muito famosa pela honra, pela generosidade, pela bravura e pela modéstia, e por falar corretamente o árabe. Os notáveis da tribo de Quraysh queriam que os seus filhos fossem entregues de preferência a essa tribo. Naquele ano reinavam na terra da tribo de Banû Sa’d uma forte seca e uma grande fome. Halîma Khâtûn, dessa tribo, conta assim essa situação: “Naquele ano eu andava pelos campos colhendo ervas, e agradecia a Allahu ta’âlâ por tê-las encontrado. Às vezes passavam-se três dias sem que eu pusesse alguma coisa na boca. Foi nesse estado que tive um filho. De um lado a fome, de outro o sofrimento do parto. Havia momentos em que, de fome, eu não distinguia a terra do céu, nem a noite do dia. Uma noite adormeci no deserto. Em sonho, alguém me mergulhou numa água mais branca que o leite e disse: ‘Bebe desta água.’ Bebi até saciar-me. Depois insistiu para que eu bebesse de novo. Bebi e bebi; era mais doce que o mel. ‘Que o teu leite seja abundante, ó Halîma! Reconheces-me?’, perguntou. Quando eu disse que não o reconhecia, ele disse: ‘Eu sou o louvor e a gratidão que manifestaste em tua aflição. Ó Halîma! Vai a Meca. Lá um “Nûr” será teu companheiro, e ficarás cheia de bênçãos. Não contes este sonho a ninguém!’ Quando acordei, encontrei os meus seios cheios de leite, e vi que a aflição e a fome me haviam abandonado.” Naquele ano, por causa da fome, vieram a Meca mais amas de leite do que nos outros anos, para amamentar crianças por pagamento e assim aliviar a sua aflição.

“Nós não fomos criados para brincar” Hadîth sharîf

O deserto dos filhos de Sa’d

Todas tinham pressa de tomar os filhos das famílias ricas. As mulheres que chegaram depressa haviam tomado cada uma a sua criança. Mas, como nosso Mestre, o Profeta, era órfão, pensando que não receberiam bom pagamento, não se mostraram desejosas de tomá-lo. Entre essas mulheres estava também Halîma Khâtûn, conhecida pela castidade, pela pureza, pela brandura (hilm), pelo pudor e pelo belo caráter. Como o animal em que montavam era fraco, haviam chegado atrasados a Meca. Mas esse atraso foi para eles causa de alcançarem mais do que buscavam. Andando por Meca com o marido, viram que os filhos das famílias ricas já haviam sido tomados. Contudo, não queriam voltar de mãos vazias. O seu único desejo passara a ser voltar com uma criança.

Por fim, encontraram uma pessoa que inspirava respeito e tinha um semblante muito afável. Era Abdulmuttalib, o chefe de Meca. Depois de saber o que desejavam, disse-lhes que tomassem o seu neto e que, por meio dele, alcançariam grande fortuna e felicidade. O amor e a afabilidade de Abdulmuttalib atraíam-nos. Aceitaram imediatamente a sua proposta. Depois, o velho avô levou Halîma Khâtûn à casa de Âmina.

Halîma Khâtûn conta assim: “Quando cheguei junto da criança, ela dormia tranquilamente, envolta em cueiros, sobre um pano de seda verde, e espalhava-se em volta um perfume de almíscar. Fiquei maravilhada e, num instante, afeiçoei-me tanto a ela que o meu coração não consentiu em acordá-la. Quando lhe pus a mão no peito, acordou, olhou para mim e sorriu. E eu, cativada por aquele sorriso, fiquei fora de mim. Depois, pensando que a mãe não me daria uma criança tão bela e abençoada, cobri-lhe o rosto e tomei-a logo nos braços. Dei-lhe o seio direito, e começou a mamar. Dei-lhe o seio esquerdo, e não mamou. Abdulmuttalib voltou-se para mim e disse: ‘Boas novas para ti! Entre as mulheres, nenhuma alcançou uma dádiva como a tua!’1

Depois de me entregar o seu querido filhinho, Âmina Khâtûn disse: ‘Ó Halîma, há três dias ouvi uma voz que dizia: “A mulher que amamentará o teu filho é da tribo de Banû Sa’d, da descendência de Abû Dhuayb.”’ Então respondi: ‘Eu sou da tribo de Banû Sa’d, e a kunya de meu pai é Abû Dhuayb.’”

Halîma Khâtûn contou ainda: “Âmina Khâtûn contou-me muitos outros acontecimentos e fez-me as suas recomendações. Eu também lhe contei o sonho que tivera antes de vir a Meca e as vozes que, no caminho, me vinham da direita e da esquerda, dizendo: ‘Boas novas para ti, ó Halîma! Será teu o destino de amamentar aquele nûr que deslumbra os olhos e ilumina os mundos.’”

Halîma Khâtûn diz: “Tomei Muhammad alaihis-salâm e saí da casa de Âmina. Fui até meu marido. Também ele, ao olhar o rosto da criança em meus braços, ficou fora de si e disse: ‘Ó Halîma! Até hoje nunca vi rosto tão belo!’ E, ao ver as bênçãos que alcançamos assim que o tomamos conosco, disse: ‘Ó Halîma! Fica sabendo que tomaste uma criança muito abençoada e de elevada dignidade.’ Respondi: ‘Por Allah! Era justamente isso que eu desejava; alcancei o que queria.’”

A partir do momento em que Halîma Khâtûn e o marido tomaram Muhammad alaihis-salâm e partiram de Meca, começaram a alcançar a sua bênção. O seu jumento franzino, que não conseguia andar depressa, tornara-se um puro-sangue. Embora a caravana com que tinham vindo houvesse partido antes deles e estivesse já muito longe, alcançaram-na e deixaram-na para trás. Depois de chegarem à terra de Banû Sa’d, alcançaram uma abundância e uma bênção nunca vistas. As tetas de seus animais, que antes davam pouco leite, enchiam-se a transbordar. Os vizinhos, vendo isso, ficaram maravilhados e compreenderam claramente que era por causa da criança que haviam tomado para amamentar. Nosso Mestre, o Profeta, mamava somente no seio direito de sua ama Halîma Khâtûn.

“Nenhum de meus antepassados cometeu adultério. Allahu ta’âlâ trouxe-me ao mundo de pais puros e bons e de mães puras” Hadîth sharîf

O seio esquerdo deixava-o para o seu irmão de leite. Com dois meses engatinhou. Com três meses ficava de pé; com quatro, andava apoiando-se na parede. Com cinco meses andou; com seis, começou a andar depressa. Com sete meses ia a toda parte. Com oito meses começou a falar de modo compreensível, e com nove, com toda a clareza. Com dez meses começou a atirar com arco.

Halîma Khâtûn contou: “Quando começou a falar, as suas primeiras palavras foram: ‘Lâ ilâha illallahu wallahu akbar. Walhamdu lillahi Rabbil-âlamîn.’ Desde aquele dia, não estendeu a mão a coisa alguma sem mencionar o nome de Allahu ta’âlâ. Não comia nada com a mão esquerda. Quando começou a andar, mantinha-se longe dos lugares onde as crianças brincavam e dizia-lhes: ‘Nós não fomos criados para isto.’ Todos os dias um nûr como a luz do sol o envolvia e depois se desfazia. Falava com a lua, e, cada vez que apontava para ela, a lua se movia.”

Por causa da seca, caíram em grande aflição e, certa vez, saíram para fazer a dua da chuva. Levaram consigo Muhammad alaihis-salâm, fizeram dua e, graças a ele, alcançaram chuva abundante e bênção. Halîma Khâtûn conta: “Quando Muhammad alaihis-salâm completou dois anos, desmamei-o. Depois fomos a Meca, eu e meu marido, para entregá-lo à mãe. Mas havíamos alcançado tais bênçãos por causa dele que separar-nos dele e não ver mais o seu rosto abençoado nos era muito penoso. Contei à sua mãe o que se passava com ele. Âmina Khâtûn disse: ‘Meu filho tem uma grande glória.’ Eu disse: ‘Por Allah, nunca vi pessoa mais abençoada do que ele.’ Depois, inventando muitos pretextos, pedi a Âmina Khâtûn que ele ficasse mais algum tempo conosco. Ela não nos desapontou e permitiu que ficasse conosco. Voltamos com ele para a nossa tribo. Graças a isso, a nossa casa encheu-se de bênção, e aumentaram os nossos bens, as nossas posses e o nosso renome. Alcançamos dádivas sem conta.”2

A nuvem sobre sua cabeça abençoada

Halîma Khâtûn contou: “Um dia, o Soberano do mundo (sallallahu alaihi wa sallam) perguntou: ‘Durante o dia, meus irmãos não aparecem. Qual é a razão?’ Eu disse: ‘Vão apascentar as ovelhas. Só voltam para casa à noite.’ Então ele disse: ‘Manda-me também com eles. Eu também quero apascentar as ovelhas.’ Inventei pretextos e dei muitas desculpas. Por fim, para que ficasse contente, eu disse: ‘Está bem.’

No dia seguinte, penteei os seus cabelos abençoados, vesti-o e mandei-o com os seus irmãos de leite.

Durante alguns dias foi e voltou. Um dia, quando sua irmã de leite Shaymâ chegou do campo, perguntei: ‘Onde está o meu filho Muhammad, a luz dos meus olhos?’ Ela disse: ‘No deserto.’ Quando perguntei: ‘Como aguenta este calor o pedaço do meu coração?’, Shaymâ respondeu: ‘Ó mamãe! Nunca lhe acontecerá mal algum. Pois uma nuvem, sobre a sua cabeça abençoada, move-se sempre com ele; assim ele fica protegido do calor do sol.’ Quando eu disse: ‘Que estás dizendo? É verdade mesmo o que dizes?’, ela jurou. Só então fiquei tranquila.

A abertura de seu peito abençoado (Shaqq-i sadr)

Outra vez, ao meio-dia, seu irmão de leite Damra veio a mim e disse: ‘Mamãe! Corre depressa!… Estávamos apascentando as ovelhas com o meu irmão coraixita. De repente vieram três homens vestidos de verde. Tiraram o meu irmão do nosso lado e levaram-no para o alto do monte. Deitaram-no de costas e abriram-lhe o ventre com uma faca. Quando vim avisar-te, eles ainda estavam lá. Não sei se o meu irmão ficou vivo ou não.’ Halîma Khâtûn continuou assim: Naquele instante o sangue subiu-me à cabeça. Chegamos lá depressa e o vimos. Logo lhe beijei o rosto e a cabeça abençoados e perguntei: ‘Ó luz dos meus olhos! Ó meu filho, misericórdia para os mundos! Que é isto? Que te aconteceu? Quem te molestou?’

Ele disse: ’Depois de sair de casa, vi dois homens vestidos de verde. Um trazia na mão um jarro de prata, e o outro, uma bacia de esmeralda verde. A bacia estava cheia de uma coisa mais branca que a neve. Levaram-me para o alto do monte. Um deles deitou-me de costas. Enquanto eu olhava, abriu-me o peito até o umbigo. Não senti dor nem sofrimento algum. Meteram a mão e tiraram tudo o que havia dentro. Lavaram-no com aquela coisa branca e puseram-no de volta no lugar. Um deles disse ao outro: “Levanta-te; agora vou cumprir eu o meu serviço.” Meteu a mão e tirou-me o coração. Dividiu-o em duas partes e tirou de dentro uma coisa negra e jogou-a fora. E disse: “Esta era a parte do shaytân em teu corpo. Nós a tiramos e a jogamos fora. Ó amado de Allahu ta’âlâ! Pusemos-te a salvo das sugestões (waswasa)3 e das artimanhas do shaytân.” Depois encheram-me o coração com uma coisa sutil e macia que traziam consigo. Selaram-no com um selo de nûr. Ainda agora sinto em todos os meus membros o frescor daquele selo. Quando um deles pôs a mão no lugar aberto, a ferida sarou. Depois pesaram-me com dez pessoas de minha umma, e eu pesei mais. Pesaram-me com mil pessoas, e de novo pesei mais. Então um deles disse ao outro: “Deixa agora de pesá-lo. Por Allah, ainda que o pesasses com toda a sua umma, ele pesaria mais.” Depois, cada um deles beijou-me a mão e o rosto, e deixaram-me aqui e foram-se.’ O lugar aberto ficou visível no seu peito abençoado.”4

Este acontecimento, que se passou com nosso amado Profeta e que é anunciado no primeiro versículo da Sura al-Inshirâh do Alcorão al-Karîm, chama-se “Shaqq-i sadr”, isto é, a abertura de seu peito.

Depois que a profecia foi comunicada a Muhammad alaihis-salâm, alguns dos Companheiros disseram: “Yâ Rasûlallah! Não nos falarias de ti mesmo?” E ele disse: “Sou a dua de meu antepassado Ibrâhîm. Sou a boa nova de meu irmão Îsâ!

E sou o sonho de minha mãe. Quando estava grávida de mim, ela viu sair de si um nûr que iluminou os palácios da Síria… Fui amamentado e criado entre os filhos de Sa’d ibn Bakr.”

Depois de ele completar quatro anos, Halîma Khâtûn levou-o a Meca e entregou-o à mãe. Seu avô Abdulmuttalib deu a Halîma Khâtûn presentes muito grandes e cumulou-a de favores. Ao deixá-lo em Meca, Halîma Khâtûn exprimiu a dor da separação com estas palavras: “É como se a minha alma e o meu coração tivessem ficado com ele.”

“Enquanto amamentei Muhammad (sallallahu alaihi wa sallam), fiquei extremamente satisfeita com ele. Nunca sujava nada. Urinava uma vez de dia e uma vez de noite, e até a mesma hora não urinava mais” Halîma Khâtûn

A morte de sua estimada mãe

Nosso amado Profeta (sallallahu alaihi wa sallam) cresceu junto de sua mãe até os seis anos. Aos seis anos, foi a Medina com sua mãe e com uma escrava chamada Umm Ayman, para visitar os parentes e o túmulo de seu pai Abdullah.

Ficaram ali um mês. Em Medina, nosso Mestre, o Profeta, aprendeu a nadar num tanque que pertencia aos filhos de Najjâr. Nesse tempo, um sábio judeu viu nele os sinais da profecia. Aproximou-se e perguntou-lhe o nome. Quando ele disse “Ahmad”, aquele sábio exclamou: “Esta criança será o Profeta dos últimos tempos!” Além disso, também alguns dos sábios judeus que ali estavam viram nele os sinais da profecia e comentaram entre si que ele seria profeta.

Umm Ayman, que ouviu essas palavras, contou o que se passava a nossa mãe Âmina; e sua mãe abençoada, receando que lhe acontecesse algum mal, tomou-o e pôs-se a caminho para voltar a Meca. Quando chegaram a um lugar chamado Abwâ, nossa mãe Âmina adoeceu. A doença agravou-se, e ela perdia os sentidos com frequência.

Olhando para seu querido filho Muhammad alaihis-salâm, que estava à sua cabeceira, disse: “Ó filho daquele que, pela graça e pelo socorro de Allahu ta’âlâ, foi salvo da terrível flecha da morte em troca de cem camelos! Que Allahu ta’âlâ te faça abençoado. Se o que vi em sonho se cumprir, serás enviado por Allahu ta’âlâ, Senhor da majestade e da generosidade abundante, para dar a conhecer aos filhos de Âdam o halâl e o harâm. Janâb-i Haqq te guardará e te protegerá dos ídolos e da idolatria que se transmitem com os povos desde tempos antigos.” E recitou estes versos:

Envelhece o que é novo, morre o que vive,
Esgota-se o que é muito; há quem fique jovem?
Também eu morrerei; minha única diferença é esta:
Fui eu quem te deu à luz – esta é a minha honra.
Deixei atrás de mim um filho de bem,
Fecho os olhos com o coração em paz.
Meu nome ficará para sempre nas línguas,
Teu amor viverá sempre nos corações.

Depois faleceu. Foi sepultada ali. Nossa mãe Âmina tinha vinte anos quando faleceu. Umm Ayman tomou consigo o Mestre dos mundos e, depois de uma viagem de alguns dias, trouxe-o a Meca e entregou-o a seu avô Abdulmuttalib.5

Seus pais eram crentes

O pai e a mãe de Habîb-i akram (sallallahu alaihi wa sallam) estavam na religião de Ibrâhîm alaihis-salâm.6 Isto é, eram crentes. Os sábios do Islã declararam que eles estavam na religião de Ibrâhîm alaihis-salâm e que, depois que a profecia foi comunicada a Muhammad alaihis-salâm, foram ressuscitados para serem da sua umma, ouviram e pronunciaram a kalima-i shahâda e, assim, passaram a ser também desta umma.7

Junto de seu avô abençoado

Muhammad alaihis-salâm cresceu junto de seu avô até os oito anos. Seu avô Abdulmuttalib era um homem amado em Meca, que administrava diversos assuntos; era imponente, paciente, de bom caráter, reto, valente e generoso. Dava de comer aos pobres, e até aos animais que ficavam com fome e sede dava alimento.

Cria em Allahu ta’âlâ e na outra vida. Guardava-se das más ações e mantinha-se afastado de todos os costumes feios da Era da Ignorância (Jâhiliyya). Impedia a opressão e a injustiça em Meca e acolhia com honra os hóspedes que chegavam. Tinha o costume de retirar-se ao monte Hirâ durante o mês de Ramadã. Abdulmuttalib, que amava as crianças e era cheio de ternura, apertava ao peito o seu querido neto e não o afastava de si nem de dia nem de noite. Mostrava-lhe grande amor e ternura. À sombra da Ka’ba, sentava-se com ele no tapete reservado só para si, e aos que queriam impedi-lo dizia: “Deixai o meu filho; a sua glória é elevada.”8 Recomendava com insistência a Umm Ayman, a ama de nosso Mestre, o Profeta, que cuidasse bem dele, dizendo: “Cuida bem do meu filho. A Gente do Livro diz que este meu filho será o profeta desta umma.” Umm Ayman disse: “Na sua infância, nunca o vi queixar-se de fome nem de sede. De manhã bebia um gole de água de Zamzam. Quando queríamos dar-lhe de comer, dizia: ‘Não quero, estou satisfeito.’”

Quando Abdulmuttalib dormia ou estava sozinho em seu quarto, não permitia que ninguém entrasse junto dele, exceto Muhammad. Apertava-o ao peito com ternura, acariciava-o e deleitava-se imensamente com as suas palavras e os seus gestos. À mesa, punha-o a seu lado, sentava-o no colo, dava-lhe o melhor e mais saboroso da comida, e não se sentava à mesa antes de ele chegar. Teve a respeito dele muitos sonhos e testemunhou muitos acontecimentos.

Certa vez houve em Meca seca e fome. Abdulmuttalib, seguindo um sonho que tivera, tomou Muhammad alaihis-salâm pela mão, subiu ao monte Abû Qubays e fez esta dua: “Ó Allah, por amor desta criança, alegra-nos com uma chuva abençoada.” A sua dua foi aceita, e caiu chuva abundante. Os poetas daquele tempo cantaram este acontecimento em seus poemas.

O monge de Najrân

Um dia, quando Abdulmuttalib estava sentado junto à Ka’ba, um monge de Najrân aproximou-se dele e começou a conversar. A certa altura disse: “Lemos nos livros os atributos do profeta que virá por último dentre os filhos de Ismâ’îl. Este lugar, isto é, Meca, é a sua terra natal. Os seus atributos são tais e tais!” – e começou a enumerá-los um por um. Nesse momento, nosso amado Profeta chegou junto deles. O monge de Najrân pôs-se a observá-lo atentamente; depois aproximou-se, olhou-lhe os olhos, as costas e os pés, e disse com emoção:

“Janâb-i Haqq te guardará e te protegerá dos ídolos e da idolatria que se transmitem com os povos desde tempos antigos” Âmina Khâtûn

“É este. Esta criança é da tua descendência?” Quando Abdulmuttalib disse: “É meu filho!”, o monge de Najrân replicou: “Segundo o que lemos nos livros, o pai dele não deve estar vivo!” Abdulmuttalib explicou: “É filho de meu filho. O pai morreu antes de ele nascer, quando a mãe estava grávida.” E o monge disse: “Agora disseste a verdade.” Então Abdulmuttalib disse a seus filhos: “Ouvi o que se diz do filho de vosso irmão; olhai por ele e protegei-o bem.”

A morte de seu avô abençoado

Quando se aproximou a morte de Abdulmuttalib, ele reuniu os filhos e disse: “Chegou o tempo de eu partir deste mundo para a outra vida. A minha única preocupação é este órfão. Quem me dera ter uma vida longa, para continuar com amor este serviço! Mas que se há de fazer? A vida não me bastará. Agora o meu coração e a minha língua ardem no fogo desta saudade. Quero confiar esta pérola a um de vós. Qual de vós guardará como convém os seus direitos e não falhará em servi-lo?” Abû Lahab pôs-se de joelhos e disse: “Ó chefe dos árabes! Se tens em mente alguém a quem entregar este depósito, muito bem; se não, este serviço faço-o eu.” Abdulmuttalib disse-lhe: “Os teus bens são muitos. Mas tens o coração duro e pouca compaixão. E o coração do órfão é ferido e delicado. Quebra-se depressa.” Alguns dos outros filhos repetiram o mesmo pedido. Abdulmuttalib, apontando as particularidades de cada um, não os aceitou. Quando chegou a vez de Abû Tâlib, este disse: “Eu desejo isto mais do que todos eles. Mas, estando presentes os mais velhos, não convinha adiantar-me. Os meus bens são poucos, mas a minha lealdade é maior do que a de meus irmãos.” Abdulmuttalib disse: “Dizes a verdade. Quem merece este serviço és tu. Mas em todos os assuntos eu o consulto e procedo segundo o seu desejo. E sempre chego ao resultado certo. Também nisto vou consultá-lo. Aquele de vós que ele escolher, eu também o aceito.”

Depois voltou-se para nosso amado Profeta e perguntou: “Ó luz dos meus olhos! Com saudade de ti, parto para a outra vida. Qual destes teus tios escolhes?”

Nosso Mestre, o Profeta, levantou-se naquele instante, abraçou-se ao pescoço de Abû Tâlib e sentou-se em seu colo. Abdulmuttalib sentiu então grande alívio e disse: “Louvor a Allahu ta’âlâ. Era isto mesmo que eu desejava.” Depois voltou-se para Abû Tâlib e perguntou: “Ó Abû Tâlib! Esta pérola não conheceu a ternura de pai e mãe. Por isso, olha por ela e cuida dela com todo o desvelo. Eu te considero superior a meus outros filhos. Confiei-te este depósito grandioso e preciosíssimo. Pois tu és filho da mesma mãe que o pai dele. Protege-o como a ti mesmo. Aceitas este meu testamento?” Ele

respondeu: “Sim, aceito.” Então Abdulmuttalib abraçou nosso amado Profeta, beijou-lhe a cabeça e o rosto abençoados e aspirou o seu perfume. Depois disse: “Sede todos testemunhas: nunca aspirei perfume mais belo do que este, nem vi rosto mais belo do que este.”9

Sob a proteção de Abû Tâlib

Depois da morte de seu avô, o Mestre do universo (sallallahu alaihi wa sallam), a partir dos oito anos, passou a viver junto de seu tio Abû Tâlib e cresceu sob a sua proteção. Naquele tempo, Abû Tâlib, assim como seu pai Abdulmuttalib, era um dos notáveis de Quraysh em Meca: um homem amado, respeitado e cuja palavra era ouvida. Também ele mostrou a nosso Mestre, o Profeta, grande amor e ternura. Amava-o mais do que aos próprios filhos; não dormia sem tê-lo a seu lado, não ia a parte alguma sem ele, e dizia-lhe: “Tu és muito bom, muito abençoado!” Abû Tâlib não começava a comer antes que ele estendesse a mão; queria que ele começasse primeiro. Às vezes mandava pôr-lhe uma mesa à parte. De manhã, quando ele acordava, viam que o seu rosto resplandecia como a lua e que os seus cabelos estavam penteados. Abû Tâlib não tinha muitos bens, e a sua família era numerosa. Depois que tomou sob a sua proteção Rasûl-i akram (sallallahu alaihi wa sallam), alcançou abundância e bênção. Quando o povo caiu em aflição por causa da seca que houve em Meca, Abû Tâlib levou-o junto à Ka’ba e fez dua. Pela bênção dele, caiu chuva abundante. Ficaram livres da seca e da fome.10

Da linhagem de Ghâlib sairá um Profeta,
Entre Zamzam e a Pedra ele se erguerá.
Com todo o povo da cidade, ajudai-o,
Ó filhos de Âmir, a felicidade está em ajudá-lo.

“Chegou o tempo de eu partir deste mundo para a outra vida. A minha única preocupação é este órfão. Quem me dera ter uma vida longa, para continuar com amor este serviço! Mas que se há de fazer? A vida não me bastará. Agora o meu coração e a minha língua ardem no fogo desta saudade” Abdulmuttalib

A viagem Meca–Busrâ

O monge Bahîra

Quando nosso amado Profeta tinha cerca de doze anos, viu um dia Abû Tâlib preparar-se para uma viagem de comércio. Compreendendo que ele não queria levá-lo, entristeceu-se e disse a Abû Tâlib: “Com quem me deixas nesta cidade, quando partes? Não tenho pai, nem ninguém que tenha compaixão de mim!…” Estas palavras tocaram muito Abû Tâlib, e ele decidiu levá-lo também consigo. Depois de uma longa viagem, a caravana de comércio fez alto em Busrâ, junto de um mosteiro dos cristãos.11

Neste mosteiro vivia um monge chamado Bahîra. Este monge erudito, que fora antes um dos sábios judeus e depois se tornara cristão, possuía um livro que passara de mão em mão e era guardado em segredo, e por ele respondia às perguntas que lhe faziam. Embora a caravana de Quraysh tivesse passado por ali muitas vezes nos anos anteriores, ele nunca lhe dera atenção. Todas as manhãs subia ao telhado do mosteiro, olhava na direção de onde vinham as caravanas e esperava algo com curiosidade, como quem procura. Desta vez, porém, algo aconteceu ao monge Bahîra: sobressaltou-se, emocionado, e saltou do seu lugar. Pois, quando a caravana de Quraysh apareceu ao longe, percebeu que uma nuvem vinha deslizando sobre ela, acompanhando-a. Esta nuvem fazia sombra a nosso Mestre, o Profeta. Quando a caravana fez alto, Bahîra viu também que os ramos da árvore debaixo da qual Habîb-i akram se sentara se inclinavam sobre ele, e emocionou-se ainda mais. Mandou logo pôr as mesas. Depois enviou um homem e convidou para a refeição todos os que estavam na caravana de Quraysh. Os da caravana deixaram nosso amado Profeta junto das mercadorias e foram até o monge. Bahîra olhou atentamente para os que vieram e perguntou: “Ó gente de Quraysh, há entre vós alguém que não veio à refeição?” Disseram: “Sim, há uma pessoa.” Pois, embora os coraixitas tivessem vindo, a nuvem continuava lá. Vendo isso, ele compreendera que alguém ficara na caravana. O monge Bahîra pediu com insistência que ele também viesse. Assim que chegou, Bahîra começou a olhá-lo atentamente e a examiná-lo. Perguntou a Abû Tâlib: “Esta criança é da tua descendência?” Quando Abû Tâlib disse: “É meu filho”, Bahîra disse: “Nos livros está escrito que o pai desta criança não estará vivo; ele não é teu filho.” Desta vez Abû Tâlib respondeu: “É filho de meu irmão.” À pergunta de Bahîra: “Que aconteceu a seu pai?”, respondeu: “O pai morreu pouco antes de ele nascer.” Bahîra disse: “Disseste a verdade. E que aconteceu à sua mãe?” Abû Tâlib respondeu: “Também ela morreu.” Diante disso, Bahîra, dizendo: “Disseste a verdade”, voltou-se para nosso Mestre, o Profeta, e pediu-lhe que jurasse pelos ídolos. Mas nosso amado Profeta disse a Bahîra: “Não me faças jurar pelo nome dos ídolos. Não há para mim, neste mundo, inimigo maior do que eles. Eu os detesto.”

Então Bahîra fê-lo jurar por Allahu ta’âlâ e perguntou: “Tu dormes?” Ele disse: “Os meus olhos dormem, mas o meu coração não dorme.”

Bahîra fez ainda muitas outras perguntas e recebeu as respostas. As respostas que recebeu concordavam exatamente com os livros que lera antes. Depois olhou para os olhos abençoados de nosso amado Profeta e perguntou a Abû Tâlib:

“Dou testemunho de que tu és o Rasûl de Allahu ta’âlâ!.. Eis o Mestre dos mundos… Eis o Rasûl do Senhor dos mundos… Eis o grande Profeta que Allahu ta’âlâ enviou como misericórdia para os mundos!” O monge Bahîra

“Esta vermelhidão está sempre em seus olhos abençoados?”

“Sim, nunca a vimos desaparecer”, respondeu ele.

Vendo que também este sinal correspondia, Bahîra quis ver o selo da profecia, para que o seu coração alcançasse plena certeza. Mas nosso Mestre, o Profeta (sallallahu alaihi wa sallam), por pudor, não quis descobrir as costas abençoadas.

Então Abû Tâlib disse: “Ó luz dos meus olhos! Satisfaz também este desejo dele!” E nosso Mestre, o Profeta, descobriu as costas abençoadas, e Bahîra contemplou longamente, até se saciar, o selo da profecia em toda a sua beleza. Comovido, beijou-o, e de seus olhos correram lágrimas como uma torrente. Depois disse:

“Dou testemunho de que tu és o Rasûl de Allahu ta’âlâ!” E, erguendo ainda mais a voz, disse: “Eis o Mestre dos mundos… Eis o Rasûl do Senhor dos mundos… Eis o grande Profeta que Allahu ta’âlâ enviou como misericórdia para os mundos…”

Os coraixitas que estavam ali disseram, maravilhados: “Como é grande o valor de Muhammad aos olhos deste monge!”

Então Bahîra voltou-se para Abû Tâlib e disse:

“Este é o último e o mais honrado dos profetas. A sua religião se espalhará por toda a terra e abolirá as religiões antigas. Não leves esta criança à Síria. Pois os Filhos de Israel são inimigos dele. Temo que façam mal ao seu corpo abençoado. A respeito dele foram feitos muitos pactos e compromissos.”

Abû Tâlib perguntou:

“Que pactos e compromissos são esses?” Bahîra respondeu:

“Allahu ta’âlâ tomou a palavra de todos os profetas, e por último de Îsâ alaihis-salâm, de que anunciariam às suas ummas a vinda do Profeta dos últimos tempos.”

Diante destas palavras de Bahîra, Abû Tâlib desistiu de ir à Síria. Vendeu as mercadorias em Busrâ e voltou a Meca.12 O que ouvira de Bahîra ressoou nos ouvidos de Abû Tâlib por toda a vida. Amou ainda mais nosso Mestre, o Profeta. Protegeu-o até morrer e ajudou-o em todos os seus assuntos.

Sua viagem ao Iêmen com seu tio Zubayr

Nosso amado Profeta, pessoa singular, dotada em todos os seus estados de virtudes e belezas, crescera e chegara aos dezessete anos. Nesse tempo, seu tio Zubayr, que ia ao Iêmen para comerciar, levou-o também consigo, para que o seu comércio fosse abençoado. Também nesta viagem se viram dele muitos prodígios. Quando voltaram a Meca, contaram-se esses prodígios, e entre a tribo de Quraysh começou-se a dizer: “A glória deste será muito elevada.”13